Alerta ao consumidor

Golpe da falsa audiência com inteligência artificial faz empresário perder R$ 324 mil; ABRADEB alerta consumidores

Criminosos simularam uma audiência judicial com juiz, promotor e advogados para enganar um idoso de 72 anos. Associação orienta como identificar a fraude, proteger o dinheiro e buscar o ressarcimento.

23/10/2026
Golpe da falsa audiência com inteligência artificial faz empresário perder R$ 324 mil; ABRADEB alerta consumidores

Um empresário de 72 anos perdeu aproximadamente R$ 324,8 mil após acreditar que participava de uma audiência judicial por videoconferência. A reunião, que aparentemente contava com a presença de juiz, promotor e advogados, era uma encenação criada com inteligência artificial para induzir a vítima a realizar transferências bancárias.

O caso, divulgado pelo Jornal da Record na quinta-feira (22 de outubro), mostra como criminosos estão utilizando novas tecnologias para tornar golpes financeiros cada vez mais convincentes.

A vítima, identificada como Elias José Salomão, recebeu inicialmente um contato de um criminoso que se passou por seu advogado. O suposto profissional informou que uma ação judicial havia sido vencida, mas que seria necessário participar de uma audiência para dar andamento à liberação dos valores.

Ao entrar na reunião virtual, o empresário encontrou um ambiente que simulava uma audiência verdadeira, com pessoas representando autoridades judiciais. A vara criminal mencionada pelos golpistas realmente existia, mas a imagem apresentada na chamada havia sido produzida artificialmente.

Durante a falsa audiência, começaram as solicitações de dinheiro. Convencido da legitimidade da reunião, Elias realizou três transferências bancárias que, juntas, somaram aproximadamente R$ 324,8 mil.

Após descobrir a fraude, o empresário decidiu ingressar com uma ação judicial contra a instituição financeira que autorizou as operações, segundo a reportagem. Não foram divulgados detalhes sobre eventual decisão judicial no caso.

Inteligência artificial torna golpes mais difíceis de identificar

O episódio evidencia uma modalidade mais sofisticada do conhecido golpe do falso advogado. Além de utilizar informações reais de processos judiciais, criminosos passaram a recorrer a imagens manipuladas, vozes artificiais e falsas videoconferências para conquistar a confiança das vítimas.

Para Raimundo Nonato de Oliveira Filho, presidente da Associação Brasileira de Defesa dos Clientes e Consumidores de Operações Financeiras e Bancárias (ABRADEB), a evolução dessas fraudes exige maior atenção dos consumidores e investimentos em segurança por parte das instituições financeiras.

Em artigo publicado no portal Rota Jurídica, em julho de 2026, o presidente da entidade já alertava:

"A inteligência artificial aumenta o poder de convencimento dos criminosos e reduz os sinais tradicionais que poderiam despertar desconfiança."

A principal estratégia dos golpistas é explorar uma situação que parece legítima. A vítima reconhece o nome do advogado, identifica informações verdadeiras sobre sua ação judicial e acredita estar diante de autoridades reais.

O perigo está justamente nessa combinação: informações verdadeiras utilizadas para sustentar uma situação completamente fraudulenta.

A atuação dessas organizações também tem sido investigada pelas autoridades. Em 8 de outubro, a Polícia Civil da Bahia deflagrou a Operação Espectro contra um grupo suspeito de aplicar golpes utilizando falsas audiências virtuais.

Segundo a polícia, naquele esquema os criminosos consultavam processos reais, utilizavam documentos judiciais falsificados e simulavam chamadas com magistrados. As vítimas eram orientadas a compartilhar a tela do celular e realizar transferências para liberar supostos créditos judiciais.

A Justiça determinou o bloqueio e sequestro de até R$ 3,5 milhões dos investigados. Trata-se de uma investigação distinta, sem ligação confirmada com o caso de Elias.

Como identificar o golpe da falsa audiência judicial?

A ABRADEB reforça que o consumidor deve adotar cuidados antes de realizar qualquer pagamento relacionado a processos judiciais.

O principal sinal de alerta é a exigência de transferências financeiras urgentes como condição para receber indenizações, valores de ações ou supostos créditos judiciais.

Uma audiência por videoconferência não deve ser confundida com um procedimento de cobrança para liberação de dinheiro. A participação de pessoas vestidas como autoridades, a apresentação de documentos ou mesmo a utilização de uma vara judicial verdadeira não comprovam a autenticidade da reunião.

Para evitar prejuízos, algumas medidas são fundamentais:

Confirme diretamente com seu advogado. Se receber uma ligação informando sobre valores judiciais, entre em contato pelo número que já utiliza com o profissional ou escritório. Não confie apenas no telefone que enviou a mensagem.

Consulte o processo judicial. Verifique as informações no site oficial do tribunal responsável pela ação e confirme a existência de qualquer determinação de pagamento.

Verifique a identidade do advogado. A OAB disponibiliza a plataforma ConfirmADV (https://confirmadv.oab.org.br/), que permite confirmar a identidade profissional.

Desconfie de pagamentos antecipados. Pedidos de Pix, depósitos ou transferências urgentes para liberar indenizações são fortes sinais de fraude.

Não compartilhe a tela do celular. Criminosos podem utilizar o espelhamento para visualizar aplicativos bancários, saldos, senhas e códigos de autenticação.

Nunca forneça senhas ou códigos de segurança. Mesmo durante uma videochamada aparentemente oficial, não compartilhe informações bancárias nem instale aplicativos indicados por desconhecidos.

Outro cuidado importante é não tomar decisões financeiras sob pressão. Golpistas costumam impor prazos extremamente curtos para impedir que a vítima consulte um advogado, familiar ou instituição financeira.

Bancos também precisam reforçar a segurança contra fraudes

A responsabilidade pela prevenção de golpes não pode ficar exclusivamente com o consumidor.

Em entrevista à Record News, em julho de 2025, Raimundo Nonato defendeu maior investimento tecnológico por parte do sistema financeiro.

"As instituições financeiras deveriam investir pesado em inteligência artificial antifraude", afirmou o presidente da ABRADEB.

A preocupação também encontra respaldo na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A Súmula 479 estabelece a responsabilidade objetiva das instituições financeiras pelos danos decorrentes de fraudes de terceiros quando relacionados aos riscos próprios da atividade bancária.

O STJ também reconhece a importância de mecanismos capazes de identificar operações incompatíveis com o perfil do cliente, especialmente movimentações de valores elevados, realizadas em sequência ou fora dos padrões habituais.

Entretanto, o ressarcimento não é automático. A responsabilidade da instituição financeira depende das circunstâncias de cada caso, incluindo a existência de falhas de segurança e a relação dessas falhas com o prejuízo sofrido.

No caso do empresário Elias, a realização de três transferências que totalizaram mais de R$ 324 mil é um dos aspectos que poderão ser examinados na discussão judicial, sem que isso signifique, por si só, a comprovação de responsabilidade do banco.

Caiu no golpe? Saiba o que fazer para tentar recuperar o dinheiro

A rapidez da reação pode fazer diferença na tentativa de recuperar valores transferidos aos criminosos.

A primeira providência é comunicar imediatamente a fraude ao banco, solicitar a contestação das operações e pedir a adoção das medidas de bloqueio e rastreamento disponíveis.

Quando os pagamentos foram realizados por Pix, o consumidor pode solicitar o acionamento do Mecanismo Especial de Devolução (MED), regulamentado pelo Banco Central.

O pedido pode ser feito em até 80 dias após a transação, mas deve ser apresentado o mais rápido possível. O mecanismo permite que instituições financeiras analisem a fraude e tentem bloquear recursos nas contas envolvidas.

É importante destacar que o MED não garante a recuperação integral do dinheiro. A devolução depende da análise da fraude e da existência de valores disponíveis para bloqueio.

Também é fundamental registrar boletim de ocorrência e preservar todas as provas: mensagens, números de telefone, links das reuniões, comprovantes de transferências, dados dos destinatários e eventuais gravações.

Caso a instituição financeira não resolva a situação, o consumidor poderá buscar a Ouvidoria do banco, o Procon, o Consumidor.gov.br e, quando necessário, assistência jurídica para avaliar a possibilidade de responsabilização judicial.

Informação e prevenção são as principais formas de proteção

O caso do empresário de 72 anos demonstra que a aparência de uma reunião oficial já não é suficiente para garantir sua autenticidade.

Com o avanço da inteligência artificial, a voz de um conhecido, a imagem de uma autoridade e até documentos aparentemente legítimos podem ser utilizados como instrumentos de fraude.

A ABRADEB reforça que consumidores devem confirmar qualquer solicitação financeira por canais independentes e oficiais, principalmente quando a cobrança estiver relacionada ao recebimento de valores judiciais.

A orientação é simples: antes de transferir qualquer quantia, confirme a informação diretamente com seu advogado e com os canais oficiais da Justiça. Uma verificação pode evitar prejuízos de milhares de reais.

Assista à reportagem

Veja o vídeo da reportagem sobre o golpe da falsa audiência.